16% do tráfego do meu celular era rastreamento
Liguei um filtro de DNS num Xiaomi comum e contei tudo o que ele pediu em uma sessão: 613 consultas, 98 bloqueadas. Onde isso aparece e o que dá para fazer.
Um celular parado no bolso não fica quieto. Ele pergunta endereços a todo momento — para sincronizar, para buscar notificação, para carregar anúncio. Cada uma dessas perguntas é uma consulta de DNS, e é a única parte do tráfego que dá para ler sem quebrar criptografia nenhuma.
Resolvi contar.
O que foi medido
Um Xiaomi 2201116PG com Android 13, em uso normal — nada de teste sintético, nada de abrir sites de propósito. Um filtro de DNS ligado, comparando cada nome de domínio pedido pelos aplicativos contra a lista pública StevenBlack/hosts, que reúne domínios conhecidos de anúncios, rastreamento e malware.
Em uma sessão:
| Consultas de DNS | 613 |
| Bloqueadas | 98 |
| Permitidas | 515 |
| Aplicativos que falaram com rastreadores | 5 |
Cerca de 16% de tudo o que o aparelho perguntou era rastreamento. Não é tráfego que o usuário pediu: é o que os aplicativos fazem por conta própria, em segundo plano.
Por que 16% e não 50%
Vale ser honesto com o número. Ele não quer dizer que 16% dos dados consumidos sejam anúncios — uma consulta de DNS tem algumas centenas de bytes, e um vídeo tem megabytes. O que ele mede é frequência de contato: de cada seis endereços que o celular procurou, um era de um domínio que ferramentas de privacidade bloqueiam.
Também depende brutalmente de quais aplicativos estão instalados. Um aparelho com jogos gratuitos e aplicativos de cupom mostra números bem maiores. Um aparelho só com banco e mensageiro mostra bem menores.
Onde isso aparece na prática
Três efeitos que dá para sentir sem instrumentação nenhuma:
- Bateria. Cada contato desses acorda o rádio. Um rádio que acorda com frequência custa mais do que um que transmite muito de uma vez.
- Dados móveis. Pouco por consulta, muito no acumulado do mês.
- Perfil. É o efeito que não se sente. O mesmo identificador aparecendo em aplicativos diferentes é o que permite ligar comportamentos que você nunca ligou.
O que dá para fazer sem instalar nada
O Android tem DNS privado nativo desde a versão 9, em Configurações → Rede e internet → DNS privado. Apontando para um resolvedor que já filtra — há vários públicos e gratuitos — você ganha duas coisas de uma vez: as consultas passam a viajar criptografadas, e boa parte dos domínios de rastreamento deixa de resolver.
É a opção mais simples que existe, e para muita gente é suficiente. O que ela não dá é visibilidade: você não vê o que foi bloqueado, nem quais aplicativos estavam pedindo.
E o que um filtro no aparelho acrescenta
A diferença é ver a lista. Saber que adashx4ae.ut.taobao.com apareceu 40 vezes é diferente de
saber que “algo foi bloqueado” — porque a partir daí dá para decidir. Talvez você queira liberar
aquele domínio porque um aplicativo parou de funcionar. Talvez queira desinstalar o aplicativo
que fez as 40 chamadas.
Sem a lista, a única escolha é ligar ou desligar tudo.
Os limites, ditos na frente
Filtrar por domínio não resolve tudo, e quem diz que resolve está vendendo:
- Anúncio servido do mesmo endereço do conteúdo não sai por esse método. É o caso do YouTube, e nenhum bloqueador de DNS resolve isso.
- Bloquear domínio não esconde seu IP dos sites que você visita.
- Alguns aplicativos dependem de domínios que estão nas listas e podem quebrar. Por isso qualquer ferramenta séria precisa deixar você liberar um domínio específico.
Os números deste artigo vêm de uma medição própria, feita com o hado99 num aparelho real. A lista de bloqueio usada é pública e auditável.